A FELICIDADE ENGARRAFADA

Giovani Miguez • 5 de dezembro de 2024

Sorriso de Plástico no Capitalismo Tardio

Giovani Miguez*


Caminho pelas ruas, observando rostos colados em telas brilhantes, sorrisos artificiais estampados em selfies, a felicidade performática para a vitrine virtual. Uma felicidade "engarrafada" pronta para consumo, padronizada. Vendida em doses diárias de ilusão, ela é a promessa de liberdade e realização individual, um canto de sereia que nos atrai para o consumo desenfreado, para a busca incessante por status e reconhecimento em um mar de egos inflados.


A felicidade, outrora ligada à virtude, à contemplação, ao bem comum, agora se resume a um acúmulo de bens materiais, a uma corrida frenética por prazeres instantâneos e efêmeros. Uma felicidade "distorcida" que nos afasta da nossa essência humana, da nossa capacidade de conexão e criação. Esta promessa de liberdade associada à felicidade nos atrai para o consumo desenfreado, para a busca incessante por status e reconhecimento em um mar de egos inflados.


Observo os trabalhadores com seus crachás e uniformes, sorrisos forçados nos rostos cansados, repetindo tarefas monótonas em escritórios cinzentos. A promessa de ascensão social, a ilusão de que o trabalho árduo e a dedicação cega nos levarão ao topo da pirâmide, enquanto a realidade nos mostra a precariedade, a exploração e a crescente desigualdade. 


Essa "administração" da felicidade, essa manipulação das nossas necessidades e desejos é um engodo, infelizmente muito em voga hoje, graças a um cientificismo que tenta substancializar tudo, até as questões metafísicas. O sistema nos oferece migalhas de prazer, doses controladas de dopamina, para que continuemos a girar a roda do consumo, alienados e anestesiados. Trata-se de um paradoxo: ser feliz não pela felicidade em uma integralidade, mas administrando o sofrimento.


A felicidade no capitalismo tardio, entretanto, é uma "impossibilidade administrada", como argumenta Juliana de Castro Chaves em sua tese “A liberdade e a felicidade do indivíduo na racionalidade do trabalho no capitalismo tardio: a (im)possibilidade administrada”, defendida em 2007. Apesar de o capitalismo tardio valorizar a subjetividade e a autonomia do indivíduo, ele o faz de forma instrumental, integrando-o à lógica da produção e do consumo. A promessa de liberdade e felicidade torna-se, assim, uma ferramenta para a manutenção do sistema, e não um fim em si mesma.


Mas será que essa felicidade "engarrafada" é tudo o que nos resta? Será que estamos condenados a essa busca incessante por satisfação em um sistema que nos aprisiona e nos limita? Acredito que não. Acredito na possibilidade de uma felicidade emancipadora, como nos mostrou Marx, uma felicidade que floresce na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Uma felicidade que se constrói coletivamente, na superação da alienação e da exploração, na busca por uma sociedade mais justa e humana.


Para além dos sorrisos de plástico e das vitrines reluzentes, existe um anseio por algo mais profundo, um desejo por uma vida com propósito e significado. É preciso romper com as correntes do consumo, questionar as narrativas dominantes e construir novos caminhos para a felicidade. Que possamos, então, desatar os nós da "impossibilidade administrada", nos reconectar com a nossa essência humana e construir uma sociedade onde a felicidade seja um direito de todos, e não um privilégio de poucos.


A felicidade, no entanto, não pode ser administrada. Ela é produto da liberdade, da autonomia e da realização das potencialidades humanas. Enquanto o trabalho for instrumento de dominação e alienação, a felicidade permanecerá um sonho distante, uma "impossibilidade administrada" no capitalismo tardio.



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