DOIS ABANDONOS, UMA REDENÇÃO

Giovani Miguez • 14 de maio de 2024

As palavras do pai, escritas com tinta desbotada pelo tempo, transbordavam amor e arrependimento. Ele explicava as razões que o obrigaram a partir, pedia perdão pela dor causada e declarava seu amor eterno pelo filho.

Em meio à praça ensolarada, um menino brincava, seu mundo reduzido à caixa de areia e aos brinquedos de plástico. De repente, um objeto estranho chamou sua atenção: um livro antigo, encadernado em couro surrado, jazia abandonado no banco, como se tivesse sido esquecido por um viajante apressado.


Curioso, o menino o pegou nas mãos, sentindo o peso da história em suas páginas amareladas. As letras douradas na lombada anunciavam um título pomposo, mas ilegível para seus olhos ainda não completamente alfabetizados. Ele o abriu com cuidado, revelando páginas manchadas e cantos dobrados, como se o livro tivesse passado por muitas mãos e aventuras.


Folheando sem pressa, seus olhos se depararam com um poema. As palavras, como sinfonia melancólica, porém acessíveis a ele, tocaram seu coração infantil, narrando a história de um pai que, partindo para longe, deixava para trás um filho e uma carta cheia de amor e explicações. O menino, ainda sem entender a dor da perda e da saudade, sentiu uma profunda empatia pelo personagem do poema.


Anos se passaram. O menino se tornou um homem, um poeta reconhecido por seus versos sensíveis e profundos. Mas, em seu coração, ainda carregava a lembrança daquele poema lido na infância, a marca indelével da solidão e do abandono.


Em um dia úmido e cinzento, vasculhando em um sebo empoeirado, o poeta encontrou novamente o livro antigo. O couro ainda surrado, as páginas mais amareladas pelo tempo, o cheiro de mofo emanando do interior. Com um misto de nostalgia e apreensão, ele o abriu nas páginas do poema que tanto o marcara.


E ali, escondido entre os versos, um envelope amarelecido se revelava. Com mãos trêmulas, o poeta o abriu, revelando uma carta escrita em caligrafia elegante. Era a carta do pai, a carta que nunca chegou a seus olhos.


As palavras do pai, escritas com tinta desbotada pelo tempo, transbordavam amor e arrependimento. Ele explicava as razões que o obrigaram a partir, pedia perdão pela dor causada e declarava seu amor eterno pelo filho.


Lágrimas brotaram nos olhos do poeta. A dor do abandono, que por tanto tempo o atormentou, se dissolvia em um misto de compreensão e compaixão. Finalmente, ele entendia o pai, perdoava-o e se libertava do peso da mágoa que carregava há tanto tempo.


Com a carta em mãos, o poeta se sentou em um banco da praça, o mesmo onde encontrara o livro anos atrás. E, com a alma transbordando de emoção, escreveu seu último poema, um poema de redenção e amor, onde perdoava o pai e celebrava a força do amor que transcende o tempo e a distância.


O poema, publicado em seu último livro, se tornou um sucesso instantâneo, tocando o coração de milhões de pessoas. Através de sua arte, o poeta finalmente encontrou paz e cura, demonstrando que o amor e o perdão são a chave para a redenção da alma.


E assim, o livro abandonado na praça, um dia encontrado por um menino curioso, se tornou o instrumento da redenção de um poeta, unindo pai e filho através da ponte da poesia e do amor eterno.


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